Entre o fogão e a tábua de lavar louças ficava a porta dos fundos, que dava pras serventias da casa, num rancho fechado de madeira com piso de chão batido a que chamávamos de cozinha e onde ficavam a despensa, os fornos de cozer pão e do tacho de cozinhar batatas pros porcos de engorda e o alambique com os cochos de fermentação do vinhoto pra produção da cachaça, e as pipas enormes, quase sempre cheias do produto pra venda.
Era ali, ao calor do fogo à boca da fornalha, que nós nos sentávamos nas noites frias de inverno a ouvir a dindinha, nossa avó materna, ou os mais velhos, contar causos e mais causos ou propor adivinhações enquanto a batata pros porcos era cozida.
Era ali também que se amontoavam dezenas de engradados de garrafas, à espera de novas encomendas do produto, e nós passávamos horas inteiras lavando-as ao murmúrio da pinga recém-condensada se derramando no pote de barro.
Um dia minha irmã Maria, a mais velha delas e que ficava nos afazeres da casa e do alambique, me incumbiu de cuidar do pote de cachaça.
— Me chame quando ‘tivé quase cheio, que eu vô lá na fonte — recomendou e saiu.
Eu acho que essa foi a minha primeira responsabilidade, ou irresponsabilidade. E eu fiquei ali um tempão de olhos pregados no pote. A pinga se despejava num fiozinho tão fininho, que de meio pra baixo se transformava em gotas. E nada de o pote encher. Daí me veio uma ideia brilhante pra me ver livre. Peguei uma caneca, aparei água da calha e joguei várias canecadas no pote até quase enchê-lo. Feito isso, corri lá pra frente da casa e me pus a berrar pela irmã, que estava lá embaixo na cachoeira lavando roupa.
— Mariaaaa, o pote ‘tá cheio! Ô Mariaaaa, o pote já encheu.
Não demorou muito, ela apareceu correndo morro acima e já com cara de braba. Sem dizer uma palavra, ela chegou ao alambique encostou a mão no pote e olhou-me séria.
— Ô seu sem-vergonha, tu andaste botando água na cachaça, foi!? Pois toma, oh!
E deu-me uns bons tabefes pelo pescoço antes de abrir o respiro do capacete e despejar o conteúdo do pote, misturando-o novamente ao vinhão fervente no tacho.
“Como foi que ela descobriu?”, me perguntei por muito tempo, intrigado e admirando a esperteza da mana.
Precisei crescer bastante até descobrir por mim mesmo, que a água fria, que eu tinha jogado, esfriou o conteúdo e a superfície externa do pote. Se eu tivesse sido tão esperto quanto fui malandro e juntado água quente do cocho, ela não teria descoberto, nem teria eu levado os tabefes. Não faz mal. Assim eu aprendi bem cedo, que “o diabo ajuda a fazer, mas não a esconder”.
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